Uma justa homenagem
“Usamos os espelhos para ver o rosto e a arte para ver a alma”
George Bernard Shaw, escritor e jornalista irlandês
Se tudo ocorreu como o previsto, cerca de 300 convidados se uniram aos vereadores da Câmara Municipal de Franca e autoridades do município para agraciar, na noite deste sábado, a escritora e jornalista Sônia Machiavelli com a medalha do mérito literário “Luiz Cruz”. A homenagem é justíssima. Claro que minha opinião, neste caso, é absolutamente parcial e contaminada. Sônia é minha mãe.
Ainda assim, duvido que qualquer outro observador da gente desta cidade e que tenha em seus juízos de valor um mínimo de isenção se atreva a dizer que a homenageada é indigna do prêmio que recebeu. A qualidade de sua obra literária é reconhecida por especialistas de todo o Brasil. As ações que empreendeu ao longo de três décadas em benefício das mais distintas manifestações artísticas são incontáveis. Sua trajetória, tão sólida quanto rica e elegante, fala por si.
É bom que se lembre que, no caso da minha mãe, a literatura nas mais distintas formas não é hobby nem diversão iniciada há poucos meses. Muito pelo contrário, é amor antigo, profundo, desses que exigem muito e nem sempre devolvem na mesma medida. Minha mãe e seus livros se relacionam desde sempre.
Ainda criança, me lembro de vê-la produzindo para o Comércio de casa, na rua Manacá, debruçada sobre a mesa redonda de madeira escura que hora servia para o almoço, hora fazia às vezes de escritório. Escrevia em folhas de papel sulfite sem pauta, sempre com uma caneta Bic azul empunhada com força e destreza. As linhas saíam retas, o espaçamento era perfeitamente igual, as correções quase nunca existiam. Escrevia de um fôlego só, como se o pensamento estivesse previamente ordenado e o raciocínio completamente concluído antes que a primeira linha de texto escorresse por suas mãos.
Eram tempos em que eu e meu irmão éramos pequenos demais para que pudéssemos ficar sozinhos em casa, e o dinheiro era escasso o bastante para impedir que uma estrutura de apoio permitisse que ela se afastasse dos afazeres domésticos para trabalhar no jornal. Assim, ela fazia o que pudia – e não era pouca coisa – de casa mesmo. Escrevia o TVendo, uma seção sobre os bastidores de TV; assinava com o pseudônimo de Diadorim uma coluna de opinião batizada de Ponto de Vista. Todas as tardes, um garoto chamado Nilson Fradique, que virou jornalista esportivo provavelmente seduzido pelo ambiente onde começou a trabalhar, percorria o trecho curto que separa a Ouvidor Freire da rua Manacá para buscar os “textos da Dona Sônia”. Era assim que o resultado daquelas manhãs de trabalho na mesa de madeira redonda se transformavam no dia seguinte em colunas e crônicas de jornal.
Crescemos e minha mãe mergulhou no Comércio para daqui nunca mais emergir. No jornal, escreveu de tudo, como se fosse uma versão moderna de Fernando Pessoa e seus múltiplos heterônimos. De notícias policiais com o pseudônimo nada sofisticado de “Zé da Cana” a editoriais elaborados a quatro mãos em conjunto com meu pai; de resenhas literárias a crônicas de costumes; de análises de novelas a notas de colunas sociais, minha mãe fez de tudo. E tudo fez bem.
Encampou um projeto de Mauro Ferreira e Atalie Rodrigues Alvez e deu vida a uma seção despretensiosa chamada Letras, Artes & Cia, publicada semanalmente no jornal. Dali o espaço migrou para o Caderno de Domingo, onde ficou por anos antes de dar origem ao caderno Nossas Letras. É provável que os leitores não tenham a exata dimensão do que o suplemento significa no contexto da imprensa brasileira. O Nossas Letras é hoje um dos poucos cadernos literários que restou nos jornais editados no Brasil, aí incluídos os grandes veículos das nossas capitais. É o único que conheço que se dedica apenas e tão somente a concentrar a produção artística e literária de escritores de uma determinada região. É um marco – e um orgulho – para todos nós. E um mérito, óbvio, de minha mãe, que nunca desistiu de garimpar, selecionar e motivar seus colegas a produzir para o suplemento.
Enquanto fazia tudo isso, minha mãe ainda encontrou tempo para escrever seus próprios livros. Foram quatro obras – Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço – de distintos gêneros, além de outras tantas participações em coletâneas ou antologias. Além disso, de forma anônima, bancou ou ajudou a bancar com recursos próprios vários autores que, sem acesso a grandes editoras ou desprovidos de condições financeiras, corriam o risco de jamais ver seu trabalho transformado em livro. Nunca pediu – e nem esperou – nada em troca. Fez porque acredita que literatura – e as artes, de modo geral – são um dom maior, uma dádiva.
Minha mãe fez tudo sem jamais recuar ou esmorecer diante de tantos desafios e obstáculos que a vida impôs a ela. Não foram poucos, assim como não foram suficientes para fazer dela vítima de depressões ou tristezas demasiadas. Aos problemas, ela costuma reagir sempre com muita força. A válvula de escape reserva para a literatura, onde expurga seus fantasmas e lida com as frustrações. Funciona bem. Garante serenidade no mundo real, resulta em literatura de qualidade no plano ficcional.
Se tudo correu como o esperado, enquanto você passeia por estas linhas minha mãe se recupera das emoções da noite de sábado, certamente muito feliz e ainda sensibilizada. Homenagens post mortem são nobres, mas pouco eficazes. O bom reconhecimento é aquele que vem em vida, que chega enquanto seu destinatário pode ter dimensão do impacto daquilo que fez durante sua existência e do resultado de seu esforço para um mundo melhor.
Graças à iniciativa do professor Luiz Cruz de Oliveira, ícone que dá nome ao prêmio, da Academia Francana de Letras e do vereador Jépy Pereira, autor do projeto, isso foi possível no caso da escritora e jornalista Sônia Machiavelli. Ainda bem. E muito obrigado.
CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

adorei o artigo belissimo
elza aparecida coelho
21/12/2011 em 11:11