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Atuação do Judiciário domina as discussões da reunião do conselho

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Os assuntos habitualmente discutidos nos encontros bimestrais do Conselho de Leitores do GCN – notadamente críticas e sugestões sobre reportagens – cederam espaço, na primeira reunião ordinária de 2009, a um tema tão incômodo quanto preocupante: a dificuldade de se fazer jornalismo num país em que se tem que conviver com interpretações muito particulares das leis.

Os conselheiros, como a maior parte dos leitores, tem um entendimento claro e correto da atividade jornalística: se é fato, pode ser publicado. Mas, na prática, não é bem assim. Pelo menos, não para a Justiça. E foi essa distância entre o entendimento comum sobre o direito à informação e a atuação da Justiça que norteou as discussões. O caso de um delegado de polícia que processou o jornal (e dois repórteres) pela publicação de uma matéria que retratava confusão ocorrida durante seu plantão ilustrou o debate.

O episódio, que tem como protagonista o delegado José Carlos de Oliveira, foi presenciado por dois repórteres do jornal, Renata Modesto e Marcos Junqueira. Em dezembro de 2008 um PM, que efetuava a prisão de um homem acusado de agredir outro, foi xingado de “policialzinho de merda” pelo delegado, dentro da delegacia. Em depoimento, o policial confirmou a agressão verbal.

O juiz do caso tem por entendimento que os fatos são “incontroversos”, ou seja, são verdadeiros. O próprio delegado não nega os fatos, mas, ainda assim, se achou no direito de processar o jornal.

Tão difícil quanto entender, foi explicar essa situação aos conselheiros. A editora-chefe do Comércio, Joelma Ospedal, enfatizou o problema. “Publicamos rigorosamente a verdade, ninguém desmentiu, não houve erros e, ainda assim, sofremos um processo. É, de fato, um absurdo jurídico. Sentimo-nos tolhidos em nossa liberdade de atuação. Qual é o sentido de fazer jornalismo se somos penalizados por dizer a verdade? Será ainda mais absurdo se chegarmos a um tempo em que teremos que pautar o noticiário pelo que ‘pode’ ou ‘não pode’ dar processo”, desabafou.

O conselheiro Sérgio Lanza confessou-se “angustiado” com a situação e reiterou: “É terrível ter que analisar cada matéria para antever se causará ou não problemas jurídicos ao ser publicada”. Em sua fala, resumiu a sensação que tomou conta do grupo de conselheiros. Todos se mostraram inconformados com as restrições impostas à liberdade do jornal e, por extensão, ao direito do cidadão de se informar por meio dele.

O diretor-executivo do GCN, jornalista Corrêa Neves Júnior, se disse alentado com a postura dos conselheiros. “Ficamos fortificados com o apoio do Conselho. Tenho certeza que essa incompreensão sobre posturas da Justiça e dificuldade de acesso às informações é a mesma que permeia todo nosso universo de mais de cem mil leitores diários. Mas reitero que vamos continuar lutando contra qualquer obstáculo que coloque em risco o direito – que para nós, é missão de vida – de informar a população de Franca e região”.

 

O GRUPO

Ana Célia de Freitas, Camila Beghelli Schiratto, Carlos Eduardo Gimenes de Matos, Dinamar Lacerda Domiciano, Luis Eduardo Marques Ferreira, Marco Aurélio Piacesi, Rosa Santa Batista, Sérgio Coelho Lanza, Tatiane Cristina Venuto, Thaís Aparecida Machado e Tiago Monteiro Martins compareceram. Foram anfitrionados por Corrêa Neves Júnior, Sônia Machiavelli, Joelma Ospedal, Everton Lima e Luiz Neto.

 

O CLIMA

Antes de cada reunião, os conselheiros costumam se concentrar na sala de pauta da redação do GCN, para troca de informações pessoais desde o último encontro. Em 14 de fevereiro os ânimos estavam diferentes. Dois assuntos esquentavam o clima e começaram a ser debatidos ali mesmo: o indiciamento dos repórteres Marcos Junqueira e Renata Modesto em ação proposta por um delegado e a retirada do nome do jornalista Corrêa Neves do novo campus da Unesp, a pedido da família.

 

O ESTÍMULO ANTERIOR

Entre uma e outra reunião do Conselho, os integrantes utilizam caixa de e-mails especial para trocarem opiniões e discutirem previamente fatos publicados pelo Comércio ou levados ao ar pela Difusora. Nas semanas anteriores, 156 mensagens foram trocadas e o assunto mais polêmico ficou visível: como o GCN agiria para continuar produzindo informação apesar de processos judiciais que, na prática, têm funcionado como censura ao livre exercício do jornalismo (leia “Justiça indicia repórteres“,  e “Valores invertidos“).

 

DE SOLA

Iniciada a reunião, Carlos Gimenes falou pelo grupo: “é surreal. Não entendi como avança um processo apesar do próprio juiz considerar os fatos narrados pelo Comércio incontroversos”. Corrêa Neves Júnior esmiuçou os detalhes. Também se deteve em falar sobre decisões judiciais que privilegiam o direito individual em detrimento do direito à informação. Sônia Machiavelli disse que “‘é preciso expor esse dilema, dar conhecimento aos leitores sobre visões distorcidas”. Duda propôs uma capa inteira, apenas com a marca do Comércio e a palavra “censurado”, de alto a baixo. “É preciso gritar para deixar claro sobre o que a democracia pode sofrer sem jornalismo adequado”.

 

UM EXEMPLO

O Conselho de Leitores é um órgão consultivo do GCN e seus membros, todos voluntários, atuam como críticos sobre o trabalho dos meios de comunicação do grupo. É impressionante verificar a dedicação com a qual exercem a função. Além das análises, críticas e sugestões sobre toda a produção jornalística do grupo, os conse- lheiros também têm ajudado na tomada de decisões importantes. Corrêa Neves Júnior destacou os bons resultados que o grupo vem colhendo com a venda de assinaturas “Platinum”. O projeto desse modelo de assinatura do jornal foi apresentado aos conselheiros e teve ampla aprovação. “Dezenas de interessados consumaram a compra em curto espaço de tempo. O Conselho estava, mais um vez, certo”, disse Júnior. O modelo abre a possibilidade, para assinantes há mais de cinco anos, de assinarem o jornal por mais cinco e garantirem várias vantagens.

 

ÁREAS PÚBLICAS

Durante a reunião, outra polêmica: “o uso de áreas públicas por particulares”. Carlos Eduardo disse que “a lei precisa ser cumprida”. “Disciplina é fundamental”, disse Duda. Piacesi, com opinião diferente, afirmou que a “Constituição, a pretexto de preservar cidadania, está tirando tudo, de todos”. De uma forma geral, o entendimento dos conselheiros é que a regulamentação – com prazos adequados e exigências passíveis de serem cumpridas – é o melhor caminho para resolver polêmicas como essa.

 

A UNESP

A opção em pedir a retirada do nome do jornalista Corrêa Neves do novo campus da Unesp, decidida pela família, veio a seguir. Duda, num primeiro momento, disse que não concordou com a a-titude da família. Disse que, em que pese a indiferença com que a ho-menagem foi tratada por todo o corpo unespiano, o nome – já que decidido por lei – deveria ser mantido. “É uma lei e que não foi revogada. Além disso, o tempo passa, as pessoas passam, mas a Unesp e a história ficam. O nome do patrono deveria ter sido mantido. Era justo que fosse assim”. Corrêa Júnior disse que “a decisão foi indispensável porque a Unesp ignorou a existência física de meu pai”. Também analisou pontos que a Unesp poderia ter oferecido contra a inclusão do nome: “poderia haver até motivos legítimos para tal recusa, mas nem sequer se deram ao trabalho de fazê-lo. Não disseram nada. Preferimos preservar a dignidade do nome de meu pai e tomamos a decisão que tínhamos que tomar”. Camila, Piacesi, Ana, Tiago, Tatiane, Rosa e demais conselheiros concordaram: “a verdade do caso está na declaração que o Comércio publicou (leia aqui). Quem revisitar a história não terá dúvidas”..

O FAROL

A reunião de 14 de fevereiro foi diferente não apenas pelo clima e expectativa iniciais, mas, principalmente, pela alta interação entre os presentes. O tempo passa e acentua-se a compreensão dos representantes dos leitores sobre a produção jornalística. O bom encontro foi tema de Gazetilha escrita por Corrêa Neves Jr. no domingo, 15 de fevereiro.

 

A GAZETILHA

Confira um trecho do texto publicado um dia depois do encontro. “Os sábados que marcam as reuniões do Conselho são momentos únicos, de intenso aprendizado, onde nós, editores, temos o raro privilégio de nos sentar diante daqueles para quem dedicamos tantas horas de trabalho duro. E deles ouvir, sem aparas, o que pensam de nosso trabalho, como avaliam o jornal que produzimos, o que temos feito de bom, o que precisamos melhorar. Muitas vezes, temos que receber também críticas, justificar erros que eventualmente tenhamos cometido. Explicar opções editoriais e o porquê das escolhas que fizemos. Não raro, ouvimos grandes sugestões, capazes de mudar o rumo ou a intensidade com que nos dedicamos a determinados projetos”. O texto pode ser lido aqui.

 

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Written by GCN Comunicação

02/03/2009 às 15:56

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