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Bastidores da notícia: Reportagem especial sobre os 100 anos de Chico Xavier

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Por ocasião do centenário de nascimento de Chico Xavier (em 2 de abril), a repórter Melissa Toledo recebeu a tarefa da editora-chefe do Jornal Comércio da Franca, Joelma Ospedal, para produzir uma série de reportagens especiais sobre a trajetória do médium.

“Desde o início, nossa maior motivação foi mostrar ao leitor uma série que retratasse desde a infância sofrida de Chico, passando pela descoberta da mediunidade, as ações que o transformaram em mito e, finalmente, o legado deixado”, explicou a repórter.

Para executar a matéria, Melissa foi até as principais cidades onde Chico Xavier esteve. Nos dias 18, 19 e 20 de março passou por Uberaba e no dia 24 em São Leopoldo. Sobre o trabalho jornalístico executado nessa reportagem especial, publicada no jornal Comércio da Franca nos dias 4 e 11 de abril, Melissa revela detalhadamente como foi planejada e executada.

Acompanhe a seguir a entrevista na qual a repórter fala da sua trajetória profissional e os desafios de sintetizar os fatores mais importantes de um tema como esse.

Editoria online do GCN – Há quanto tempo você é repórter?

Melissa – Profissionalmente estou na área há cerca de dez anos. Desde que nasci, literalmente vivo no meio. Meu pai, Osvaldo Batista de Toledo, é radialista e jornalista há mais de 35 anos. Aprendi a andar nos corredores da rádio Difusora de Batatais (a primeira do grupo Emissoras Regionais de Ribeirão Preto), onde até hoje meu pai permanece diretor comercial e locutor/entrevistador. Onde também entrei oficialmente no mercado de trabalho aos 15 anos, primeiro “atrás dos microfones” e depois já participando da programação jornalística e de entretenimento. Terminei o ensino médio, decidi ser cientista (!), ingressei em duas universidades públicas, para, em dois anos e meio, mudar de ideia e cursar Comunicação. Fui contratada pelo GCN Comunicação – na época apenas Comércio da Franca – há quatro anos e meio, em 2005. Atuei por pouco mais de dois anos como repórter correspondente em Batatais e, desde a criação do NPE (Núcleo de Projetos Especiais) sou repórter desse setor – incumbido de produzir principalmente as revistas publicadas pelo GCN (são cinco títulos e várias edições anuais), cadernos e páginas especiais, como o Se liga (diário), Concursos & Carreiras, Caderno de Turismo, matérias para as páginas de Imóveis, Empregos e Veículos entre outras.

EO – Você segue a doutrina espírita? Isso influenciou alguma coisa durante a sua reportagem?

Melissa – Concordo com muitos preceitos da doutrina, mas não sou praticante. Espiritismo à parte, digo e citei na matéria, que Chico Xavier nos ensina com os livros que psicografou, com seu exemplo de caridade e suas atitudes pelo próximo, que fazer o bem continua a ser o caminho para a eternidade. E isso esteve acima de tudo. Entre as características de Chico, uma das que eu acho mais interessantes é justamente a aproximação que, indiretamente, ele fez entre o espiritismo kardecista e catolicismo popular tradicional. Embora frequentemente chamado de santo, fazer milagres não era a proposta do médium. O espiritismo tem discurso desmistificador da santidade. O próprio médium cresceu em família extremamente católica, fato que pode explicar esta aproximação de doutrinas. Sem muitos rótulos. Independente de convicções religiosas é um exercício se distanciar de si e se portar ‘apenas’ como repórter para transmitir com isenção o que é preciso. É a tão falada dissociação entre a condição profissional e humana do jornalista.

EO – Quanto tempo você levou para entrevistar e apurar cada detalhe da matéria?

Melissa Toledo –O trabalho de campo em si durou quatro dias inteiros, mas as pesquisas, entrevistas, apuração de detalhes, checagem de informações e produção durou aproximadamente quatro semanas.

EO – Quantos dias durou a viagem que você realizou até Pedro Leopoldo e Uberaba (MG)?

Melissa – Embora as duas cidades fiquem no mesmo Estado, Minas Gerais, estão bem distantes uma da outra. Durante o planejamento da matéria, calculamos que se saíssemos de Franca e partíssemos para as duas cidades em uma única ocasião teríamos, ao todo, mais de 15 horas de tempo em rodovias. Optamos, então, em fazer duas viagens separadas. Na primeira, fomos até Uberaba de carro, onde passamos três dias. Na segunda, fiz um “bate-volta” até Pedro Leopoldo: segui de avião do aeroporto de Ribeirão Preto até a capital de Minas, Belo Horizonte, e de lá, mais quilômetros de carro até Pedro Leopoldo.

EO – Como foram feitas as primeiras entrevistas? Você já tinha contatos pré-estabelecidos para a reportagem?

Melissa –Nossa editora-chefe, a Joelma, sempre diz que o resultado de uma boa reportagem é o filtro de 10% de todo o material que o repórter teve acesso durante as apurações. Acho que a medida foi essa. Nas matérias publicadas entre fontes e personagens temos aproximadamente 30 pessoas entrevistadas. Para compor os textos e ter uma mínima visão geral “do que é” Chico, acredito ter ouvido outras mais de 200 (incluindo, por exemplo, o frentista do posto que indica a rota para uma repórter perdida e acrescenta que “Chico era bacana”; a moça da banca que pergunta o que eu fazia na cidade e cita umas cinco pessoas interessantes para serem ouvidas, etc). Um dos princípios do Espiritismo é a caridade, a prática do bem. Entre os entrevistados, a imensa maioria seguidora da doutrina Espírita, isso parece imperar. Todos os abordados procuraram dedicar o máximo de atenção e exteriorizar o conhecimento que tinha sobre o médium. Sobre o tempo de entrevistas, com mais de três horas de gravações e dois bloquinhos consumidos e quilos de informações na cabeça, me assustei com a real impossibilidade de conseguir retratar tudo em uma reportagem. Sempre há mais para contar.

EO – Você já sabia os lugares e as pessoas que entrevistaria nos locais que você esteve?

Melissa Alguns personagens eram essenciais encontrar como a Cidália Xavier, 87, a única irmã viva de Chico Xavier; o Eurípedes Higino, 60, que viveu com Chico desde os sete em uma espécie de adoção informal; médiuns; biógrafos; pessoas atendidas pelos programas assistenciais criados por Chico; voluntários; seguidores da doutrina e “devotos” do médium. Mas, definitivamente, não sabia com precisão o que encontraria. Tinha uma vaga ideia de que conheceria gente devota, gente carente, admiradores e idealizadores. Mesmo nas entrevistas pré-definidas ou agendadas, há fatos que surpreendem. Por exemplo: à distância, me relataram uma Cidália avessa a entrevistas e fotos, mas o que conheci uma sorridente e carinhosa irmã do Chico, interessada no que eu estava fazendo.

EO – Durante seu trabalho de reportagem quais as dificuldades que você encontrou?

Melissa –A maior dificuldade é o eterno desafio da profissão: o de conseguir transmitir a intensidade de um personagem da grandeza de Chico Xavier, um fenômeno humano e mediúnico, de forma sintética, em formato que pudesse ser publicado no jornal. E, também como em qualquer matéria, o receio de perder “aquele detalhe que faz a diferença” acaba nos acompanhando. Por isso, olhos e ouvidos prontos a todo tempo desde o amanhecer até o último encontro espírita acompanhado no dia.

EO – Qual o momento mais importante da matéria para você?

Melissa –Para mim o mais importante é o que relatei no lide da primeira série de matérias, publicada no dia 4 de abril: Chico está “vivo”. Tentamos mostrar gente que vive sob forte influência do médium e lugares que se tornaram o centro das atenções do Espiritismo no País. Durante a produção da reportagem, o encontro com Cidália foi especial e está entre os pontos altos. É a pessoa viva mais próxima ao Chico. A única de 14 irmãos viva. É como se fosse a personificação desta ideia “Chico está vivo”. A gente se sente próximo dele conversando com ela. Outra situação que nos faz também sentir a presença do médium é durante a visitação da casa onde ele viveu por mais tempo e morreu em Uberaba. Se Chico “vive” para muitos, certamente é ali onde a afirmação mais se aproxima da realidade. Algo especial faz com que aquela casa seja diferente. Conhecer diversas pessoas que conviveram com o médium em diferentes fases da vida também foi muito especial. Entre elas está o escritor José Issa Filho, 87, que morou na Rua de São Sebastião na mesma época que a família Xavier em Pedro Leopoldo; Josefa Soares dos Santos, de 95 anos, um “baú vivo” de histórias do centro espírita Meimei, fundado por Chico em Pedro Leopoldo; o comerciante Sérgio Luiz Ferreira Gonçalves, 58, sobrinho-neto de Chico Xavier; o empresário Geraldo Lemos Filho, de Belo Horizonte, que comprou uma das casas de Chico em Pedro Leopoldo e a transformou em um espaço para visitação pública que abriga todas as obras psicografadas e muitas biográficas e o biógrafo de Chico, o psicólogo Jhon Harley Madureira Marques, amigo e fã absoluto do médium que nos dá a verdadeira noção de que o que mais impressiona na história de Chico não é a parte sobrenatural e sim a sua solidariedade, foco principal do livro que lançará em junho.

EO – Você acredita que tenha conseguido transcrever para os leitores a importância e influência de Chico Xavier?

Melissa – Deduzo que nem a minha matéria, nem a de outros colegas da imprensa mundo afora, nem livros, nem filmes ao se deparar com uma rica trajetória de 100 anos seja capaz de retratar toda a profundeza de Chico. O que oferecemos é uma síntese, uma pequena amostra da imensa vida do médium, um brasileiro excepcional. Publicar uma matéria retratando isso, para mim, é consolador neste momento. As matérias foram publicadas justamente em uma época em que escândalos de pedofilia na Igreja Católica vêm à tona em uma velocidade ímpar. Enquanto isso, a imprensa estampa as aulas das igrejas evangélicas em que pastores são treinados para usurpar fieis mesmo em tempos de crise. Religião a parte, mostrar um pouco da imensidão de Chico como homem é, no mínimo, consolador. Conforta saber que Chico professou a sua fé sem pensar em fama e dinheiro, sem outra intenção que não ajudar o próximo através de práticas de caridade e consolo de sofredores.

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Written by GCN Comunicação

02/04/2010 às 13:15

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