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Wagner

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Wagner

‘Um homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar’
Charles Chaplin,
 ator e comediante britânico

Terça-feira, 19h31. Havia chegado de São Paulo poucos minutos antes e entrado direto para uma reunião com a equipe de marketing. Discutíamos detalhes sobre o eventoTop Francaquando o celular tocou. O identificador de chamadas mostrava que o colunista Anderson Pinheiro é quem tentava falar comigo.

A voz trêmula já nas primeiras palavras deixava claro que aquela não seria uma conversa de amenidades. ‘Junior, é o Anderson… O Wagner morreu’. Não consegui assimilar nada. Perguntei, no automático. ‘Quem?’ Transtornado, Anderson balbuciou qualquer coisa incompreensível. Depois, completou. ‘O Wagner Garcia. Acabou de morrer…’. Não acreditei. Perguntei se ele tinha certeza do que estava me dizendo. ‘Foi de repente. Ele estava internado, ia ser transferido para São Paulo e teve uma parada cardíaca. Morreu na pista do aeroporto, dentro do avião’.

Repeti o que tinha acabado de ouvir para a equipe que participava da reunião. Ninguém parecia acreditar. A informação era absurda demais. Os momentos de incredulidade só cessaram quando a editora-chefe do Comércio, Joelma Ospedal, irrompeu na sala. Trazia a mesma informação que Anderson havia me antecipado, com alguns detalhes adicionais que já tinha conseguido confirmar. Tristemente, e por mais improvável que pudesse parecer, Wagner Garcia estava mesmo morto.

O resto da história todo mundo conheceria, nas horas seguintes, em detalhes. Wagner Garcia havia sido internado no início da madrugada de segunda-feira com um quadro agudo de obstrução intestinal. Atendido no Hospital do Coração, tinha recomendação clínica para uma intervenção cirúrgica. A família havia preferido transferi-lo para o hospital Albert Einstein, em São Paulo. Os trâmites burocráticos se estenderam até terça-feira, a UTI aérea contratada não apareceu no tempo devido e uma substituta foi providenciada. Chegou a Franca no final da tarde de terça-feira. Infelizmente, tarde demais. Quando foi embarcado no avião que o levaria à Capital, Wagner sofreu uma súbita parada cardiorespiratória. Morreu dentro da UTI aérea, ao lado da prima Luiza Helena, que o considerava como irmão, e diante de dois médicos que nada puderam fazer para evitar o pior.

A morte de Wagner põe fim à trajetória de um dos personagens mais interessantes da história da cidade. Empresário bem sucedido que viu a pequena rede à qual se associou em meados dos anos 70 se transformar num conglomerado com presença em todo o país, Wagner Garcia poderia morar na avenue Montaigne, em Paris; no Upper East Side, em Nova Iorque; ou no principado de Mônaco. Ainda assim, era aqui mesmo em Franca que mantinha seu endereço residencial, no condomínio Royal Park, onde vivia com a namorada.

Homem afável e sem afetações, andava sem qualquer esquema especial de segurança, um contraste absoluto com o patrimônio que amealhou. Frequentava shows, restaurantes, bares, padarias… Pegava a fila, pagava a conta, sem nunca invocar condição especial. Wagner era um sujeito simples, o que não significa dizer que fosse linear. Sorveu intensamente o que o mundo tinha para oferecer. Viajou muito, hospedou-se em grandes hotéis, jantou nos melhores restaurantes, divertiu-se a valer. Só não permitiu que tudo isso alterasse sua substância. Nem que esquecesse os amigos que conhecia desde que morava na Álvaro Abranches, recém-chegado de Ibiraci, ou dos funcionários das lojas de Franca a quem sempre devotava especial atenção. Muito menos de tantos que, anonimamente, ajudou a empreender negócios ou a pagar dívidas inesperadas.

Quando, já depois dos 50 anos, voltou a se apaixonar, não foi por nenhuma mulher óbvia, de família milionária, nem por qualquer aspirante a modelo-e-atriz. Adriana Ribeiro, a mulher que conquistou seu coração e por quem Wagner havia adotado um estilo de vida muito menos intenso nos últimos anos, é pessoa de origem humilde, mas que proporcionou a ele momentos de grande felicidade.

Foi logo que Wagner começou a se relacionar com Adriana, há quatro anos, que tive um dos encontros mais improváveis com ele. Estava trabalhando num fim de tarde qualquer quando ele chegou ao GCN. Alegre, dizia que estava muito feliz, que eu precisava conhecer ‘a Adriana’ e que, já que ela morava perto da nossa sede, aproveitaria para passar por aqui sempre que fosse visitá-la. Conversamos muito, bebemos um pouco, trocamos informações sobre lugares que gostávamos de visitar. Como sempre, Wagner insistia para viajássemos juntos rumo a um destino qualquer onde houvesse cassinos – uma de suas paixões e, confessadamente, também minha. Eram bons planos, jamais concretizados.

Foi ao lado de Adriana também que o vi pela última vez com vida, na última Expoagro, na noite do show de Jorge & Matheus. Queria se encontrar com Túlio Maravilha, ídolo do seu Botafogo, time do coração, e que seria recebido junto com outros jogadores e artistas no nosso camarote. Visivelmente rejuvenescido, e alegre como de hábito, falou muito dos filhos Franco, Fabrício e Flávia e celebrou as netas. Contou sobre o novo helicóptero que havia comprado e que chegaria em outubro. Narrou com orgulho o momento em que, ao lado dos tios e da prima, abriu o pregão da Bovespa na oferta inicial de ações do Magazine Luiza. Detalhou viagens recentes e trocamos impressões sobre política.

Wagner amou e viveu intensamente. Tão intensamente que, por uma destas armadilhas da nossa precária existência, vai morrer duas vezes. A primeira, da forma que todos nós já acompanhamos. A segunda, nos próximos dias, quando seus tios Luiza e Pelegrino Donato retornarem da Itália. Octogenários, ambos foram poupados pela família da notícia sobre a morte do sobrinho querido que tomaram como filho desde que Wagner, precocemente, perdeu os pais.

É compreensível e louvável a decisão de preservá-los, mas isso nem de longe faz as coisas menos difíceis. Em algum momento dos próximos dias, a família, que já sofreu intensamente com a morte inesperada de Wagner, será submetida uma vez mais à angústia semelhante, quando for chegada a hora de contar aos tios o que houve. Aqueles que compunham seu círculo íntimo terão que encontrar forças sabe-se lá onde para, uma segunda vez, sepultá-lo emocionalmente. Certamente serão momentos dificílimos. E, sem dúvida nenhuma, muito doloridos.

Chaplin ensina sabiamente que aquele que ama não morre nunca. O exemplo cabe perfeitamente na biografia de Wagner. Aos que acompanham de longe o sofrimento da família só resta torcer para que, tão logo seja possível, seus filhos, netos, tios, primos e namorada consigam transformar a dor da perda em saudade. E as lembranças, em fonte permanente de alívio para a ausência. Que assim seja.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Francajrneves@comerciodafranca.com.br

Written by GCN Comunicação

19/07/2011 às 15:17

Publicado em Institucional

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